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CONTAMINAÇÃO NO LAGO DE SERRA DA MESA
Síntese de uma tragédia em andamento

Por: LF Pinheiro
 

Nosso Brasil precisa de desenvolvimento em todos os setores para deixar de ser “país de terceiro mundo”, e para tanto é necessário gerar energia elétrica em grande escala. Assim a qualidade de vida de todos os que aqui vivem estará assegurada, a exemplo do que ocorre nos países de primeiro mundo.

Mas isso não significa que geração de energia possa ser feita de qualquer maneira, ou pior, de maneira irresponsável. O potencial hídrico existente no país é o maior do mundo e utilizar essa capacidade inclui objetivar o multiuso das águas. A interferência humana na natureza, sem estudos de impacto ambiental, econômico, cultural e social produz tragédias. O exemplo mais recente da irresponsabilidade governamental é o Lago de Serra da Mesa.

O lago de Serra da Mesa, localizado no estado de Goiás, é o maior em água acumulada no Brasil, com 43,25 bilhões de metros cúbicos espalhados em 1.784 quilômetros quadrados de área alagada. O reservatório recebeu sua primeira cota em 1995, portanto há nove anos, e ainda não está completamente cheio.

Como na maioria dos lagos criados para geração de energia elétrica, tão necessária para o desenvolvimento do nosso país, a inundação da área aconteceu sem o devido estudo de impacto ambiental e também sem a retirada de metais pesados, como mercúrio, largamente utilizados nos garimpos existentes na área.

Além disso, milhões de árvores e animais morreram afogados e a decomposição desses seres favorece o surgimento das algas azuis.

Algas azuis (cianobactérias filamentosas)

Esses microorganismos são formados principalmente pela ausência de sílica e de maior movimento vertical e horizontal das águas. Aos olhos humanos são de cor verde, mas quando vistas ao microscópio apresentam o filamento azul.
A incidência desses elementos prejudica a biodiversidade e em grandes quantidades representam grande risco para o ser humano.
 

Contaminação por mercúrio

As análises laboratoriais feitas nas águas do lago da Usina de Serra da Mesa apresentam ainda índices de contaminação por mercúrio, vinte vezes maiores ao máximo tolerável à saúde humana, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.
A contaminação por mercúrio provoca câncer e má formação fetal e pode ocorrer pela ingestão de peixes (principalmente o tucunaré) e animais silvestres e domésticos que bebem da água do reservatório.
 

Endemias em expansão

Avaliações sorológicas realizadas em cães e gatos domésticos da região, acusam a proliferação de infecções causadas por mosquitos vetores.

O avanço das endemias na região do Lago da Serra da Mesa (esquistossomose, leshimaniose, raiva e malária) parece desconhecido e ignorado pelos governos federal e estadual, mesmo com macacos morrendo de febre amarela silvestre. Os municípios mais atingidos são: Uruaçu, Niquelândia, Campinorte, Colinas de Goiás, Campinaçu, e Minaçu localizados no nordeste de Goiás.
 

Destruição sistemática

A descarga sem tratamento de esgoto urbano e industrial, carreamento de resíduos agrotóxicos e destruição da mata ciliar, são também fatores de contribuem negativamente para a redução da qualidade da água do reservatório e favorecem o surgimento das algas azuis.
 

Imobilidade geral dos órgãos responsáveis

Os governos federal, estadual, dos municípios locais e Furnas – Centrais Elétricas – reconhecem a existência, mas não admitem a gravidade do problema.

Quando em grande quantidade, que é caso do lago de Serra da Mesa, as algas azuis diminuem a quantidade de oxigênio na água e ao morrerem liberam toxinas. Se a água do lago for usada para irrigação pode contaminar a plantação, e por conseqüência o ser humano e animais que ingerirem esses alimentos.

Nos diversos encontros já realizados para avaliação do problema, cogitou-se o controle das algas azuis mediante o uso de álgidas, ou cloro.
Diante da gravidade da situação, o Ministério da Saúde editou a portaria 518/2004 e nela o Artigo 19, parágrafo 2 veda o combate das algas azuis com álgidas ou cloro. Com isso, reconhece oficialmente a existência e gravidade da situação.

Por outro lado, na região nordeste do país os registros oficiais acusam a morte de aproximadamente 200 pessoas e intoxicação em mais de 2000, causadas por algas azuis.

Alerta máximo

Em razão da constatação desse fato, que poderá se transformar na maior tragédia ambiental do nosso país, e real possibilidade de contaminação ao ser humano, recomendamos fortemente que os pescadores evitem a área, até que a situação tenha sido resolvida.

Se medidas de alcance forem tomadas agora, o caso estará resolvido em aproximadamente dez anos. Até lá não incluam o Lago Serra da Mesa em seus roteiros de pesca.

Nota do Editor:
- Esta síntese foi feita através de informações obtidas em diversas publicações na imprensa regional e nacional sobre a contaminação do Lago de Serra da Mesa, incluindo o Instituto Serrano Neves.
- Em 11/02/05 foi enviado questionário à Centrais Elétricas de Furnas (através do site) para resposta até o final do mesmo mês, o que não ocorreu.