|
ATOLADOS até o
PESCOÇO!
Texto e Fotos:
LF Pinheiro
Os cursos de Fly Casting
e Atar realizados às margens do rio Aiuruoca, no distrito da Fragária
que está a 1400 metros de altitude e fica em Itamonte/MG, sempre são
motivo de alegria para os alunos que vão em busca de conhecimentos que
possam permitir a prática do esporte com técnica e estilo.
A Fragária recebeu o
nome do morango silvestre que é característico da região que é um pedaço
do paraíso na terra e lá o rio Aiuruoca, que corta um trecho da Serra da
Mantiqueira, possui as mais amplas condições de água para a pesca de
trutas em todos os níveis de conhecimento do Flyfisher. Isso é raro no
mundo.
O nome do rio Aiuruoca
vem do tupi guarani e significa casa do papagaio verde e hoje até
que poderia ser chamado de ‘a casa das trutas arco-íris’, pela fartura e
qualidade da espécie que habitam suas águas. Atualmente boa parte da
estrada que liga Itamonte ao distrito, através das montanhas mineiras,
está sendo asfaltada e a metade restante está em muito boas condições de
trânsito, permitindo acesso com qualquer tipo de veículo. Mas nem sempre
foi assim.
No início de 1998 o
então prefeito Laurinho providenciou a recuperação da estrada que estava
com manutenção muito precária. Com isso foi possível ir até lá usando
carros comuns, pois até então somente era viável com veículos 4X4,
reduzida, correntes nas rodas e muita oração. Diante dessa situação
passei a promover os cursos mais intensamente e contratei os serviços de
Van (Sprinter) com motorista, para levar e trazer alunos.
No Curso de inauguração
do serviço de transporte, estavam inscritos o Luiz, Marcos e Homero e
convidei meu amigo Jonas para fazer parte do grupo, uma vez ter sido ele
que me levou à conhecer, em 1994, o Aiuruoca – o rio da minha vida. Nada
mais justo que ele participasse dessa nova fase de viagens à Fragária,
com todo conforto.
Sempre monitoro as
condições do tempo, mas naquela época os serviços de meteorologia não
possuíam a precisão de hoje, obtida através do uso de vários satélites
em orbita geoestacionária. Essa atitude visa minimizar a possibilidade
de realizar um curso com chuva, pois é bem desagradável, até por que as
águas do rio se tornam barrentas e pescar trutas nessa condição não é
prazeroso. E me lembro bem que a possibilidade de chuva no final de
semana do curso era pequena. E saímos com destino à Itamonte, aonde
chegamos por volta das 15h, dentro do previsto, e fomos almoçar para em
seguida sair em direção à Fragária, num trajeto de 37 km que leva
aproximadamente 1h 30 em condições normais.
Durante a refeição
comentamos a respeito da viagem feita na Sprinter, com o Zé – motorista
- dirigindo tranquilamente, e como esse veículo, grande, macio,
confortável e com ar condicionado atendia bem as expectativas do grupo.
Já ao término do almoço o tempo começou mudar e nuvens escuras cobriam o
céu de Itamonte, isso me trouxe preocupação, mas a vontade do grupo
prevaleceu e resolvemos seguir adiante. Mal saímos do asfalto e a chuva
caiu com vontade, mas muita vontade.
Já no primeiro
quilômetro de estrada sem asfalto a Sprinter atolou, pois não tem tração
nas rodas, e o Zé disse que para sairmos dali seria preciso descer e
empurrar.
Eu estava sentado na
frente com ele, desci para avaliar a situação e vi que a coisa não
estava nada boa para nosso lado. Informei ao grupo da situação e por
unanimidade foi decidido seguir adiante, ainda que empurrar a Van fosse
a solução. Todos descem, enfiam os pés no barro e após muita força
conseguimos desatolar a Sprinter. Embarcamos molhados e com barro nos
calçados e roupas e não andamos quinhentos metros e de novo ficamos
atolados e foi preciso descer e entrar novamente no barro, embaixo de
muita chuva, para empurrar o veículo.
A chuva não dava tréguas
e mesmo assim o grupo permanecia animado, ainda que a cada cem metros
tivéssemos que descer e empurrar aquela Van enorme, pesada, suja e
chegada num buraco, pois bastava ter um buraquinho no caminho que ela
caia dentro. Assim foi pelos próximos dois quilômetros, e a cada atolada
nos descíamos já totalmente cobertos de lama e eu tinha barro até no céu
da boca, pois cada vez que empurrando na parte traseira da Sprinter eu
gritava “Vai Zé, vai Zé aceleraaaaa” minha boca ficava cheia dele. Isso
sem contar as vezes que escorreguei e cai na lama, eu e todos os demais.
Por volta da 1h da
madrugada e ainda embaixo do aguaceiro, com a Sprinter atoladinha pela
enésima vez, tendo percorrido apenas quatro dos 37 quilômetros que nos
separava da Fragária, a vontade do grupo foi sendo ocupada pelo cansaço
e por votação foi aprovada a decisão de regressar para a cidade. Lá
ficaríamos hospedados no hotel e ao amanhecer, se o tempo estivesse bom
a viagem seria reiniciada.
O regresso foi menos
demorado, pois montanha abaixo fica menos difícil e por volta das 3h da
madrugada estávamos na porta do hotel onde fomos recebidos com muito
espanto pelo recepcionista. Ao me ver no espelho entendi a razão, só
tinha o branco dos olhos sem barro.
Como
a chuva deu uma trégua e após lavarmos nossos rostos preparei o grupo
para a foto que mostra nossa situação após a aventura no barro. Da
esquerda para direita estão:
Eu, Zé o motorista,
Jonas, Luiz, Marcos e Homero.
Reparem que eu, Marcos e Homero estamos sem as
jaquetas, pois já as havíamos tirado porque metade do barro que
estava na estrada estava nelas. Reparem ainda, que o Zé está
limpinho e com os tênis branquinhos, pois foi o único que não desceu
para empurrar a Sprinter, que lá na montanha, embaixo do dilúvio e
dentro – literalmente - do barro mais parecia uma carreta de dezoito
rodas carregada com cimento de tão pesada para empurrar.
Um mês e pouco
depois, retornamos para fazer o Curso - sem a Van - com o tempo
muito bom. Meu amigo Jonas não pode nos acompanhar em razão de
outros compromissos profissionais. Acho que foi por isso. Da
esquerda para direita, Luiz, eu, Homero e Marcos.
Essa foi
a única vez (espero e tenho orado bastante) que um Curso foi adiado
por causa das condições da estrada.
NE: a
história só pode ser contada agora, dez anos depois, pois as fotos
estavam perdidas e após longa e exaustiva busca consegui encontrar
os negativos. E sem foto, mostrando o fato, o ‘causo’ iria entrar
para o rol de histórias de pescador. |