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MEMÓRIAS DE UM FLYFISHER
Parte I
 

Por: LF Pinheiro
Fotos: LF Pinheiro
 

1994 - Faz três anos que estou em contato direto com o flyfishing, aprendendo ou melhor, tentando aprender com livros, revistas e opiniões das poucas pessoas que como eu, estão engatinhando nesse método de pesca.
Em busca de conhecimento, assinei duas revistas norte-americanas que têm excelente conteúdo, mas os exemplares vendidos em banca chegam bem antes dos exemplares de assinante. Estou pensando que quando vencer as assinaturas não irei renová-las e passarei a comprá-las em banca, pois assim aprendo mais cedo. Eta ansiedade difícil de controlar.

A aquisição de equipamentos é muito difícil porque não há lojas especializadas aqui no País e a solução é comprar quando em viagem ao exterior. Outra opção é usar o cartão de crédito para comprar a tralha, via fax (a maravilha do século XX), em algumas lojas nos EUA.

Fax

Isso tem gerado alguns problemas, como receber produtos avariados no transporte, com numeração errada ou com muito atraso. Quando é preciso trocar a mercadoria, o prazo pode chegar a seis meses até ter o produto de volta.

Apesar dessas dificuldades, estou verdadeiramente apaixonado pelo fly e já abandonei o uso de iscas artificiais, que usei por mais de 35 anos.
Tenho pescado com fly em lagos, rios e córregos por esse Brasil afora e me divertido muito com black bass e tucunarés. Estou comprovando que é possível pescar com fly em diversas situações que, até então, pareciam impossíveis.
Já quebrei duas varas por descuido e perdi algumas linhas e líderes - como são caros! - por falta de orientação.

Tucunaré no fly

Dia desses, durante uma pescaria, fazendo false cast, quebrei a ponta da vara com um streamer e, até agora, não sei o que aconteceu.
Nas revistas que assino, vi anúncios de vídeos e vou encomendar alguns, com ensinamentos sobre flyfishing. Quem sabe, minhas dificuldades diminuam.

Moscas então... Já perdi a conta de quantas ficaram enganchadas em árvores, pedras e tocos. Como não sei atar, a solução é comprar e já possuo um estoque razoável, se bem que não sei o que fazer com boa parte delas, pois comprei por achá-las bonitas. Estou começando a pensar que é melhor fazer minhas próprias moscas, como ensinam nas revistas. O problema é que eu não tenho muita habilidade manual e não sinto confiança em mim mesmo para iniciar.

Pincho torto

É eletrizante pescar com fly, eu nunca senti emoção como essa, parece que o peixe está literalmente em minhas mãos. É uma sensação indescritível e só em mencionar sinto a puxada do peixe e o cantar da carretilha; é muito bom.
A cada pescaria descubro uma coisa nova e meus arremessos já chegam há uns quinze metros, a linha cai quase esticadinha, próximo do lugar onde eu sei que o peixe está.

A parte mais difícil é ter que agüentar a gozação dos amigos que insistem em dizer que fly é coisa de “desmunhecado” e que só falta eu usar brinquinho na orelha.
Para acabar com essa brincadeira de mau gosto, comprei um brinco de tarraxa e quando começa esse tipo de papo, ponho o brinco e digo: Agora não falta mais nada. A tática tem dado certo, pois a gozação tem diminuído.

Dourado

Outra “parada dura” é quando os piloteiros vêem o equipamento e as moscas e afirmam categoricamente “Os peixes daqui não gostam de comer penas com pelos, gostam é de minhocuçu, de lambari vivo e de filé de curimbatá azedo”. Mas isso eu já enfrentei quando usava iscas artificiais e, geralmente, no final do dia de pescaria eles querem saber mais sobre as moscas.

A expectativa de pescar trutas, todo equipado, igualzinho aos flyfishers que tenho visto nas revistas importadas, a cada dia cresce mais e mais. Não raro, tenho até sonhado com isso. Não sei explicar essa compulsão, mas creio que isso deve ser porque quando criança eu li muito sobre pescaria de trutas e agora ocorreu “um disparo cerebral” que desperta esse desejo quase incontrolável. O jeito é programar as próximas férias para ir à Patagônia argentina ou em Montana, nos EUA.

Equipadinho

Com o início do inverno, neste ano, chega a boa notícia: alguns amigos me convidaram para conhecer um lugar chamado Fragária em Itamonte, Minas Gerais. Dizem que lá tem o rio Aiuruoca com trutas arco-íris em estado selvagem e a água do rio é gelada, o que requer o uso de wader. Parece que essa é minha chance de realizar o sonho de pescar “nos trinques”. E lá vou eu de novo às páginas dos catálogos para encomendar o equipamento, via fax, a maravilha do século XX.

O sonho se realizou de maneira completa. O rio Aiuruoca é lindo, águas claras com trechos de todos os tipos: retas longas e abertas, curvas, poços, cachoeiras e trutas arco-íris, muitas.
Mas tenho tido alguns problemas para caminhar por dentro d’água, pois as pedras são lisas e soltas e apesar das botas terem feltro nas solas, já levei muitos tombos. Por duas vezes, ao cair, quebrei a vara de fly, pois estava caminhando e segurando-a com a mão direita e instintivamente apoiei com a vara. Certa ocasião, escorreguei ao tentar atravessar um trecho de águas rápidas, caí e fui rolando até parar num poço com uns dois metros de profundidade.

Rio Aiuruoca O Wader encheu de água gelada e passei um grande apuro para chegar à margem do rio. Por Deus, e graças à experiência como mergulhador, não morri. O prejuízo foi grande com a perda de chapéu, caixas de moscas e um anel com a logomarca da minha empresa, feito sob encomenda. Mas ainda assim, irei continuar a pescar nesse rio maravilhoso e tenho certeza que com mais conhecimento e treinamento, irei descobrir muitos “segredos” da pesca de trutas.
Tenho constatado que, infelizmente, alguns colegas que também começaram pescar com fly, desistiram e voltaram aos métodos anteriores. Percebi que uma parte da “culpa” pelo abandono do fly está no fato de não conseguir informação e também por haver comprado equipamento errado, que não ajuda no aprendizado. A outra parte é por não saberem ler em inglês e é nesse idioma que estão todas as informações disponíveis sobre flyfishing.
Se a falta de informação gera muita dificuldade, informação errada fornecida por pessoas despreparadas é bem pior. Essa gente fala do que não sabe e ajuda criar mitos absurdos, como por exemplo: Fly é só para pescar trutas – É só para pescar em água rasa – É só para peixe pequeno etc. É uma pena que isso aconteça.

Agora, no final do ano e com a brutal crise financeira que se abate sobre o País, tenho que adiar minha viagem à Patagônia argentina e triplicar a atenção com os negócios.

Truta Quem sabe na próxima temporada? Por enquanto, o Aiuruoca - e suas trutas - é o meu objeto de desejo.
Crise econômica é oportunidade para aproveitar novas oportunidades e por isso vou pesquisar o mercado editorial e de público no qual estou inserido, para avaliar a possibilidade de lançar uma revista no segmento de flyfishing.
As fitas de vídeo que comprei têm contribuído muito para minha formação, tanto é que já encomendei outras e assim que chegarem irei “devorar” os ensinamentos. Uma delas é do Mel Krieger, muito bem cotado nos EUA, e outra de um cara chamado Doug Swischer, que faz arremessos usando “a quebra do pulso”, o que contraria tudo o que ouço falar sobre não poder usar o pulso para arremessar. Com certeza, nelas encontrarei soluções para os problemas que ainda não resolvi, como arremessar quando está ventando ou em lugares estreitos, por exemplo.
Mas já percebi que o melhor caminho é fazer um curso com instrutor devidamente habilitado e assim que surgir a primeira oportunidade, eu a agarrarei com unhas e dentes. Sinto que estou irremediavelmente conquistado pelo flyfishing, pelo estilo, elegância e interatividade que o método engloba.
Vara exclusiva A propósito, acabo de receber o meu presente de aniversário: uma vara # 6 hexagonal, extra lenta, feita exclusivamente para mim, com estojo em couro. É a de número 99 de uma série única de duzentas fabricadas no mundo pela Walton Powell. Não vejo a hora de estreá-la no Aiuruoca.

Para ler Memórias II clique aqui