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TÃO LONGE E TÃO PERTO
Crônica
 

Por: LF Pinheiro

Quando criança, ouvia de meu pai e seus amigos, na varanda de nossa casa, relatos sobre as maravilhosas pescarias que faziam no rio Quebra Anzol, em Minas Gerais. Na época, morávamos em Araxá, cidade mineira de termas, cujo nome em tupi guarani significa "lugar de onde se vê o sol primeiro". A distância que eles percorriam - ida e volta - até o rio não era superior a 80 km. Para a época isso significava uma grande viagem, pois os veículos e as estradas não eram como os de hoje e para essas grandes pescarias de três dias muito esforço e pouco dinheiro eram necessários. Afinal, há 50 anos a coisa era bem diferente, vivíamos em outro mundo, em todos os sentidos.

Numa dessas pescarias, um dos amigos de meu pai fez um corte profundo na mão direita, resultado da luta que teve com um grande peixe, pois a vara de bambu (preparada por ele) quebrou e, na tentativa de segurar o bicho no braço, a linha - 0,90mm - cortou sua mão. O peixe escapou e nem deu o ar da graça.

De lá prá cá, o mundo e as pessoas mudaram, mas a natureza insiste em permanecer igual (afinal esse é o plano de Deus), apesar das agressões que vem sofrendo e reage de maneira, para nós, assustadora quando passamos dos limites. Hoje, com a aumento da população, das novas técnicas e da pressão de pesca exercida sobre os cardumes, já estamos dizendo que um exemplar de 4 Kg é um "peixão". Para capturar um exemplar desse porte é necessário viajar mais de 700km (só na ida) para quem mora na capital de São Paulo e haja dinheiro.

Os lugares antes considerados como "paraísos" da pesca, hoje tornaram-se raros e é comum a exploração do turista e não do turismo. Um a um os “paraísos” foram sendo invadidos por negociantes inescrupulosos e pescadores idem.

Assim, a Amazônia tornou-se o grande sonho dos pescadores daqui e do exterior, porque lá ainda é possível capturar grandes quantidades e variedades de peixes, talvez pelos próximos três ou quatro anos. A cada ano os barcos hotéis precisam navegar mais adentro da floresta, para localizar espécies que são "legalmente abatidas, filetadas, congeladas e transportadas em práticas bolsas térmicas", para alegria dos depredadores e futura tristeza dos que hoje ganham o sustento de suas famílias com o negócio da pesca.

A tentativa de localizar um responsável para essa situação é desnecessária, pois somos todos culpados, uns por terem feito e outros por permitirem que a coisa continue sendo feita de maneira errada.

E antes que alguém se sinta ofendido, examinemos os exemplos da Argentina e dos EUA, onde a pesca é tratada como um produto e, como tal, gera empregos e lucro, além de diversão pura e simples.

Na Argentina, a pesca de trutas é o segundo produto de turismo, perdendo apenas para os esportes praticados na neve. Há dez anos, todos se uniram no sentido de proteger e melhorar o estoque de peixes, a fim de que mais turistas fossem atraídos para a Patagônia Argentina. Foram criadas fundações e associações que sugeriram a criação e modificação das leis e normas de pesca esportiva.

Paralelamente houve treinamento para empresários do segmento e para os guias. Além disso, muita promoção e publicidade são feitas para difundir a região, onde a prática do pesque-e-solte tem possibilitado os aumentos da quantidade e do tamanho das trutas argentinas, a ponto da Patagônia ser considerada como a melhor região de pesca de trutas do planeta.

Uma das pesquisas mostradas no IV Congresso de Pesca Esportiva revela que o quilo da truta morta, no varejo, custa ao consumidor, em média, U$6,00, enquanto que ao ser capturada e solta, esse mesmo quilo gera U$250,00 para o município.

Outro dado apresentado no evento mostra que o turista gasta, em média, U$2.000,00 por uma semana de pesca e diversão na Patagônia Argentina. Saindo do Brasil, a despesa do turista pescador cai para US$1.500,00, em média.

Já nos EUA, o faturamento com pesca esportiva no qüinqüênio 1991/1996 foi da ordem de 38 bilhões de dólares e com esportes ao ar livre a cifra atinge a casa dos 140 bilhões de dólares. Eles conseguiram isso basicamente com duas espécies de peixes: truta e black bass. A quantia é igual a 20% do nosso Produto Interno Bruto - PIB - ou maior que o orçamento da União para o mesmo período.

O que nos torna diferentes desses dois países é que lá houve mobilização da sociedade e vontade política para fazer valer seus pontos de vista.

Creio que lá, orações dirigidas ao verdadeiro Senhor dos senhores foram ouvidas e respondidas. Saíram na frente e já estão colhendo os resultados positivos gerados pela pesca esportiva de duas espécies de peixes (na Argentina é só uma), criando novas oportunidades de trabalho em várias frentes como guias, hotelaria, fabricação de equipamentos, pesquisas, comércio varejista, etc.

Aqui, por enquanto, podemos contar com alguns abnegados que se esforçam para fazer repeixamentos e criar regulamentações em uns poucos rios. O que existe por parte do governo é má vontade e desconhecimento do assunto - vide a permissão para abate de tucunarés fora da baça amazônica, além da completa ausência de fiscalização.

Temos a maior ictiofaúna do mundo, onde com toda a certeza, mais de 200 espécies podem ser capturadas pelo método pesque-e-solte, durante todo o ano. Enquanto não se chega a um acordo, tucunarés, por exemplo, com mais de 5 kg são impiedosamente abatidos, porque não há educação do pescador e nem fiscalização do governo.

Na América do Norte o tucunaré foi introduzido há 12 anos, com o nome de "peacock bass" e, na Flórida, exemplares de 3 a 4 kg já estão sendo capturados com facilidade. Na Argentina, com o modelo gerencial atual sendo aperfeiçoado a cada ano, as trutas em breve poderão ser classificadas por arroba.

Por isso, podemos deduzir que em um curto espaço de tempo, os turistas americanos deixarão de vir ao nosso país para gastar aqui os seus preciosos dólares que geram empregos.

Para termos de volta os grandes peixes é necessária a união de todos os envolvidos no segmento da pesca esportiva, abandonando egos feridos e vaidades infantis e arregaçando as mangas para fazer o trabalho que se espera de cada um de nós, e principalmente orar pela causa.

Caso contrário resta a alternativa de ir pescar em outros países onde pesca esportiva é assunto sério. E muitos dos rios brasileiros terão de ser rebatizados, mudando nomes como o de Quebra Anzol para Quebra-a-cara, com todo o respeito para com meus conterrâneos.