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TRUTA
MARROM
O GRANDE DESAFIO
Por:
LF Pinheiro
Fotos:
LF Pinheiro
e Piccino
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Eu
estava na Cabaña do lago Hess, situada em pleno Parque Nacional Nahuel
Huapi, distante uns 40 km de Bariloche, para aproveitar o convite para
pescar por dois dias naquele pedaço de paraíso. Durante o jantar nosso
anfitrião, Piccino Gemma, avisou que no dia seguinte iríamos pescar no
lago Roca e no outro dia, no lago Fonk. |
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Acordei cedo para aproveitar a luz suave e tirar umas fotos do lugar que
mais parece um pedaço do paraíso, tomar o café e embarcar na caminhonete que
mais parece um trator. |
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Uns dez km depois de percorrer uma picada, literalmente subindo por cima de
troncos de árvores que haviam sido derrubadas pelo vento forte do dia
anterior, atravessando atoleiros, chegamos no lago Roca. Aí entendi a
necessidade da robustez do veículo, mas eu ainda acho que aquilo é um
trator, disfarçado de caminhonete. Vinte minutos depois de navegar pelo
lago, o Piccino avisa que poderia começar a arremessar em direção ao
barranco. |
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A manhã seguiu assim, com muitas arco-íris, fontinalis e marrons, todas com
peso variando entre 1 e 2 kg. Paramos para almoçar e aproveitar a paz e a
beleza do lugar, junto a desembocadura bifurcada de um rio. O Piccino me dá
uma Woolly Bugger na cor laranja, com bead head, e indicou os lugares onde
eu deveria arremessar, já que havia uma bifurcação na saída do rio para o
lago. |
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Tomei posição e foi só alegria, uma truta atrás da outra, até que num
arremesso mais longo eu deixei a linha shooting #3 afundar bem e foi aí que
tomei um tranco seco, forte e sem chance de fisgar, pois o tippet 2X havia
sido cortado. Reforcei o tippet para 0X, troquei por uma mosca maior, depois
outra, outra e mais outra, mas a "coisa" não deu sinal de vida. No final do
dia, feliz e com aquela cara de que “não acredito no que está se passando"
havía fisgado mais de 50 trutas.
Durante o jantar o Piccino comunica que no dia seguinte sairíamos em
busca das grandes "marrones" no lago Fonk. Confesso que para
dormir naquela noite foi difícil para mim, armando estratégias para
enfrentar a espécie que já me havia escapado em outras
oportunidades. Até então eu só havia fisgado marrons com até 1 ½ kg
no máximo, e a maioria eu não tinha visto sequer a "cara", ou se
preferir a barbatana dorsal. |
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Primeira
providência: trocar a Thomas&Thomas LPS #6 que eu havia usado naquele
dia por uma T&T Vector #7. Segunda providência: aumentar o líder para
10' e com tippet OX. Terceira providência: selar todos os nós, com uma
cola especial para essa finalidade. Quarta - e principal - providência:
Orar para que Deus me desse uma truta marrom grande. |
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Na manhã seguinte, já no lago Fonk, percebi que a pescaria não seria tão
fácil como no dia anterior. Além disso, o vento ia aumentando devagar,
obrigando o Piccino a fazer mais força nos remos para nos manter a distância
de arremessos. Eu estava me divertindo e pegando uma arco-íris aqui, uma
fontinalis ali, uma marronzinha acolá quando sinto uma entrada pra valer na
mosca e travei a truta. Pela corrida e envergada da vara Vector #7 o Piccino
adiantou que era marrom e das grandes. |
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Trabalha daqui, trabalha dali a marrom passa por baixo do barco, mostra
o dorso e corta o tippet. Que lastima! Disse o amigo argentino. Essa era
grande, acrescentou o Lusca. Mais uma que escapou pensei comigo, mas
ainda vou pegar a minha marrom. Enquanto isso não acontecia eu ia me
divertindo com as arco íris. |
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No meio da tarde, atracamos de proa na saída de um riacho com a orientação
de arremessar no degrau existente entre a desembocadura e o lago que estava
há uns 15 metros, pois a chances de peixes grandes eram boas. Desembarquei e
dei uma boa olhada no riacho que não tem mais que 4 metros de largura por 1
½ m de profundidade. Naquele trecho de águas límpidas só havia uma galhada
na margem oposta a mim, que raspava a tona, e embaixo dela na sombra, estava
a marrom. Avisei o Piccino da minha intenção e procurei fazer a aproximação
para o arremesso, mas as margens do riacho possuem vegetação densa com um
tipo de bambu e os arbustos de rosa mosqueta, o que dificulta a entrada e o
pincho. |
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Consegui achar um ponto para atravessar a "muralha" e me coloquei,
há uns 10m rio acima, do esconderijo da truta e usando a técnica de
arremesso lateral, fiz o pincho deixei que a mosca fosse em direção
à marrom. O peixe saiu para pegar a catch fish, mas eu estava um pouco exposto
devido a vegetação cerrada, e experta que é, a truta me viu. Desistiu da
mosca e mansamente foi nadando riacho acima. |
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Sai pelo mesmo lugar por onde havia entrado e fui caminhando pelo mato a
procura de um lugar para tentar pegar a "marronzona". Dei de cara com uma
árvore caída sobre o riacho, com um tronco grosso o suficiente para suportar
meu peso e havia lugar para me esconder da truta entre a vegetação e ainda
tinha a luz do sol a meu favor.
O único problema - e que problema - é que naquele lugar não havia sequer um
metro quadrado que não tivesse um pau ou uma galhada dentro e fora d'água.
Subi no tronco tomando cuidado para não cair dentro do riacho, fui colocando
em posição a Vector #7 de 9', que agora parecia ter dobrado de tamanho pelo
tanto de vegetação ao redor e fiquei observando cada centímetro do lugar. |
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Esperei mais alguns minutos e usando a técnica do arco, arremessei o líder
de 10', com uma Woolly Bugger original, amarrada no tippet 0X, com todos os
nós selados, bem onde o tronco entrava na água. A Woolly bamboleante foi
descendo mansamente o pequeno espaço de águas claras, controlada pela ponta
da vara que estava dentro d'água, quando a marrom saiu debaixo do tronco
onde eu estava, soltou o corpo na água mansa e esperou a mosca chegar perto. |
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Ela abriu a boca e num impulso rápido abocanhou a Woolly e, até agora não
sei como tive reflexo para fisgar o peixe, pois tudo estava acontecendo a
menos de 3 metros de mim. Ao sentir a ferrada a truta disparou riacho acima
por entre paus e galhos, dei um pouco de linha, travei na mão e segurei o
bicho. Eu sabia que se ela estivesse bem ferrada desta vez não escaparia,
puxei a linha fazendo a vara dobrar por entre galhos e a marrom saiu nadando
riacho abaixo, entrando em outro enrosco. |
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Adoto o mesmo procedimento e ela retorna e dá uma ou duas voltas em torno de
um galho, quase do outro lado do riacho. Com muito cuidado dou mais dois
passos por cima do tronco e com a ponta vara dei uma cutucada no peixe que
se desenrolou. Ato contínuo ergui a Vector #7 colocando-a na vertical e
quando o peso da truta fez a vara dobrar, puxei a marrom para o meu lado e
instintivamente enfiei o dedo polegar na boca do peixe e segurei firme. Eu
havia finalmente conseguido pescar minha primeira grande marrom. |
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Eu estava tão feliz que parecia uma criança quando ganha sua primeira
bicicleta e agradeci a Deus pelo belo peixe capturado. Mas tarde, já refeito
da emoção e com a adrenalina no nível normal, recebi os cumprimentos do
Piccino e disse-me que poucos são os flyfishers capazes de tirar um peixe
daquele porte, naquele lugar. |
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Continuei pescando até próximo das 22h quando a noite chega nesta época do
ano, pois era o último dia ali e aproveitei até o último raio de sol,
contemplando a beleza do lugar e a superfície do lago que mostrava em
pequenos círculos, a subida das trutas comendo mayflies na superfície.
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Quem sabe nesse cardume não estará uma marrom ainda maior esperando
pela próxima mosca?
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