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O BANQUETE DAS TRUTAS
Parte I
Por: Silvia "Sirenita"
Bergamasco*
Tradução:
LF Pinheiro
Faz muitos anos que pesco com mosca, porém, comecei atar minhas próprias moscas há pouco tempo e descobri que se antes, pescar era uma paixão, a partir do momento que passei a fisgar trutas com moscas atadas por mim, (moscas boas o bastante para que as trutas as confundissem como parte de sua dieta) o prazer transformou a paixão em “enfermidade”, felizmente para mim, incurável.
Vou tentar oferecer-lhes um panorama e a importância de ter uma noção de entomologia na pesca com mosca. Uma espécie de guia de referencia para saber de que se alimentam nossas amigas, as trutas, e que moscas imitam seus pratinhos favoritos.
Há muitos fatores que fazem com que alguns flyfishers pesquem mais que os outros: técnica de aproximação, leitura correta da água, apresentação da mosca, tippet adequado. Talvez, sorte? Porém, uma mosca correta pode fazer a diferença. Acontece que, muitas vezes uma truta se encontra na situação considerada “seletiva” e é ai que o flyfisher enfrenta um problema fundamental: a escolha de uma mosca que, uma vez apresentada à truta, seja o mais parecido possível com um inseto natural.
Isso é essencial quando ocorre uma eclosão de insetos e a truta passa a se alimentar vorazmente de um inseto específico; não importa quão delicada seja nossa apresentação, nem se estamos usando um tippet mais fino, nem se conseguimos que nossa mosca produza movimentos dignos de uma dança celestial. Se a mosca é grande demasiado, se foi atada com quantidade maior de pelos e/ou penas, enfim, se a mosca não tem um aspecto real, o mais provável é que o resultado não seja o que estamos esperando.
Assim, poderemos nos contentar em esperar o momento em que a truta comerá de maneira não seletiva, atacando nossa mosca por irritação, talvez por que imite um peixe, ou por que a corrente arrasta uma grande quantidade de larvas e ninfas diversas, ou ainda por que chamou a atenção, já que nossa mosca não se parece com nada que ela tenha visto anteriormente. Contudo, a verdade é que com a crescente pressão de pesca, ano após ano, a truta se torna cada vez mais seletiva e, com a prática de pescar e soltar, felizmente cada vez mais difundida, a truta que foi capturada e solta uma vez, se tornará mais cuidadosa na próxima. Tem para todos os gostos.
Porem, se mergulharmos mais profundamente nessa maravilhosa arte do flycasting, poderemos aprender como pescar... e soltar mais trutas. E para que isso seja possível é muito enriquecedor conhecer os distintos tipos de insetos, conhecer seus ciclos de vida, como vivem e em que tipo de água. Só assim será possível imitar com nossa mosca, seu tamanho, cor e formato e quando ocorrerá seu movimento na água.
Moscas
Para ter uma idéia de como se classificam as moscas, segundo o grau de imitação ou semelhança, poderemos agrupá-las em:
a) IMITADORAS: baseia-se em uma cópia o mais aproximado possível de um inseto real (tamanho, formato e cor) e a função (flutuabilidade, deriva, etc.).
b) IMPRESIONISTAS: assemelha-se a muitos tipos de insetos. Em geral destacam as características chaves do padrão genético que acionam o gatilho ou comportamento da conduta primitiva e predadora das trutas.
c) ATRATIVAS: tem por finalidade chamar a atenção da truta com seu movimento, brilho, cor, volume, vibrações, etc. Não se parecem com nada em particular.
Quanto ao grau de flutuabilidade as moscas podem ser:
a) SECAS: atuam sobre a superfície da d’água.
b) ÚMIDAS: atuam dentro da massa aquosa, podendo fazê-lo em distintos níveis de profundidade.
Esta classificação deve ser vista somente como uma referência.
Um momento particular, o tipo de água, as condições climáticas, a seletividade ou não da truta, indicam que graus de imitação deverão utilizar. Se nos deparamos com águas rasas e transparentes e trutas seletivas, talvez devamos extremar o grau de semelhança com o natural. Frente a outras circunstâncias como águas rápidas, pouca ou nenhuma atividade na superfície, pouca pressão de pesca, pode permitir que não sejam necessárias tantas precauções com a exatidão de nossa imitação.
A observação, a experiência e o bom senso serão sempre nossos aliados no momento de eleger a mosca.
Entomologia
Dentro do Reino Animal existe um conjunto de organismos invertebrados que apresentam o corpo coberto por uma substância de consistência dura chamada quitina, a qual constitui um exoesqueleto ou esqueleto externo que lhes confere proteção, possuem segmentos do corpo e apêndices (antenas, pinças bucais e patas) articulados: esses se denominam Artrópodes. Dentro desse conjunto se encontra a classe Inseto. As classes se subdividem em:
* Subclasse
* Grupo
* Ordem
* Família
* Gênero
* Espécie
A entomologia é a ciência que estuda os insetos (do grego entomon = inseto e logos, = estudo). A palavra inseto se refere ao artrópode antenado, com o corpo coberto de quitina y dividido em cabeça, tórax e abdome, com três pares de patas e, na maioria dos casos, com dois pares de asas. Os insetos pertencem a diversas ordens dentro da classe Inseto (tais como Dípteros, Coleópteros, Lepidópteros, etc.) que por sua vez é uma divisão do phylum Artrópodes. Logo depois das ordens temos as famílias, em cada família, gêneros, e por último, espécies. A ciência que trata dos princípios da classificação é a taxonomia. Uma vez que o exoesqueleto ou tegumento dos insetos não é extensível, para poder crescer eles devem trocar de pele; a pele descartada se chama “muda” ou troca de pele. Os insetos apresentam ao longo de sua vida um fenômeno chamado metamorfose (troca de forma), dando origem a estágios bem diferenciados e que variam de acordo com o tipo de inseto: ovo, larva, pupa, ninfa e adultos (sub-imago e imago). Se esses estágios são todos de vida aéreo-terrestre (respiração traqueal) se trata de insetos terrestres, e se os primeiros estágios (ovo e ninfa) são de vida aquática (respiração branquial) e o último estágio (adulto) de vida aérea, estamos falando de insetos de origem aquática.
O que as trutas comem
Os insetos aquáticos são o alimento mais abundante para as trutas, porém, esses não representam a totalidade dos alimentos que elas consomem. A dieta das trutas inclui outros peixes e ainda:
- insetos terrestres: grilos, gafanhotos, vespas, formigas, escaravelhos e besouros.
- crustáceos: pâncoras e camarões.
- anfíbios: caracóis, sanguessugas, rãs, entre outros. E todos esses animais podem ser imitados (atados) por nós.
Os hábitos de alimentação das trutas variam de acordo com a velocidade da água e o lugar onde vivem e também segundo as distintas etapas de crescimento. Quando a truta ainda é um alevino, traz dentro de si seu próprio alimento (saco alevinal), que lhe permite viver por poucos dias. Quando se converte em um pequeno peixe, consome somente insetos aquáticos; e a medida que vai crescendo, pode alimentar-se de outros peixes, incluindo trutas.
Esta tendência de canibalismo se acentua nos rios de águas rápidas e nos em que a vida aquática é escassa, já que uma presa grande equivale a milhões de insetos. As subidas seletivas acontecem geralmente nos poções e em águas de corrente uniforme. Se as águas são tranqüilas, a truta tem mais oportunidade de estudar a sua presa e decidir se convém ou não aceitar o menu que estamos oferecendo. E quanto mais rápida for a corrente das águas, maior deverá se a mosca para fazer com que a truta saia do fundo e suba até a superfície. As ninfas constituem um dos principais sustentos para a truta e o pescador que chegue a conhecer seu comportamento pode eleger e pescar com a imitação correta. Estas representam o estado larval imaturo dos insetos aquáticos, os quais amadurecerão e se transformarão em um adulto alado.
A vida do inseto começa no ovo que é depositado pelas fêmeas na superfície da água e que chega ao fundo por seu próprio peso. Uma vez ali amadurecem e dão origem a larvas e/ou ninfas, que se alimentam dentro da água e crescem através de sucessivas trocas de pele. Em se tratando de insetos de metamorfose incompleta, quando a ninfa já desenvolveu sua estrutura para converter-se em adulto, inicia sua etapa final dentro da água, denominada emergente. Uma vez completada esta fase, abandonam seu invólucro e sai um inseto alado chamado imago. No entanto, se falamos de metamorfose completa, quando a larva chega a sua etapa final, constrói um casulo e permanece ali até terminar de desenvolver a crisálida ou pupa da qual sairá finalmente o inseto alado.
Sucessivamente veremos em detalhe os insetos aquáticos que servem de alimento para truta:
* MAYFLIES (moscas de mayo): Efemerópteros
* CADDIS FLIES: Tricópteros
* STONEFLIES (moscas da pedra): Plecópteros
* MIDGES (mosquitos): Dípteros
* DRAGON - DAMSEL FLIES (alguaciles - libélulas): Odonatos
Bibliografia:
La trucha selectiva – D. Swisher, C. Richards – Ed. Tutor – 1997
La magia de pescar con mosca – A. Maubré – 1998
Tricópteras patagónicas – J. Calandra – Boletín Mosquero Primavera 96
Moscas para la pesca – R. Del Pozo Obeso – Ed. Everest – 1987
Mayflies y sus imitaciones – J. M. Di Liscia – Entre Líneas – Octubre / Noviembre 1994 – Año 1, N° 2.
Imitando a las Caddis – J.C. Gilardi - Entre Líneas – Octubre / Noviembre 1994 – Año 1, N° 2.
*Silvia é empresária – pecuarista – na Argentina e flyfisher por tradição de família. Para mais informações sobre ela leia matéria
Flyfishing também é para mulheres.
Para ler "O banquete das trutas - parte II"
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