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O BANQUETE DAS TRUTAS
Parte II

Por: Silvia "Sirenita" Bergamasco*
Tradução: LF Pinheiro

MAYFLIES (moscas de maio): Efemerópteras (Efêmero: de vida curta; Ptero: alas)

Mayfly

Também chamadas efêmeras, tem um ciclo de vida denominado incompleto, que dura na maioria das espécies um ano e consta de quatro etapas: ovo e ninfa como estados subaquáticos; a subimago (dun) e a imago (spinner) como estados alados e aéreos. E a truta se aproveita de quase todos eles. O estado de subimago é único no mundo dos insetos.

O ciclo se inicia com a postura dos ovos pelas fêmeas na superfície da água durante o verão. Uma vez soltos, afundam rápidamente depositando-se no fundo. O ovo tarda em amadurecer de 1 a 3 semanas, dependendo da temperatura da água e das condições reinantes, e deles nasce uma diminuta ninfa que habita no fundo, entre as plantas, debaixo das pedras, areia, cascalho e até no barro. A maioria das espécies se alimenta de detritos vegetais e organismos microscópicos, poucas espécies são onívoras e depredadoras.

Ninfa de Mayfly

As ninfas de mayfly são pequenas (de 3 mm a 3 cm incluindo a cauda) e a cor varia segundo a espécie e o fundo em que elas habitam (ocre, marrom, oliva e gris são os mais comuns). O corpo da ninfa se divide em três partes: cabeça, tórax e abdome. A cabeça se compõe de um par de grandes olhos, geralmente muito simples e um par de antenas curtas.

O tórax consiste em três partes, com um par de patas em cada segmento e o encaixe das asas (wing case) se encontra no último; às vezes o encaixe de asas é pequeno e se encontra coberto pelo segmento do meio. O abdome se divide em dez segmentos bem visíveis; as brânquias são encontradas na parte superior do abdome, ao longo do mesmo, ou nos primeiros sete segmentos, e possuem dois ou três filamentos de cauda.

Cada espécie tem sua própria maneira para adaptar-se ao habitat em que vive e para isso desenvolvem diferentes características corporais e apêndices típicos: assim temos as reptantes, as quais se encontram em todo tipo de águas com mais freqüência em trechos de corrente moderada, seu corpo é cilíndrico com três pares de compridas e finas patas e são más nadadoras; tem também as suspensas, que vivem presas nas pedras que ficam no fundo de rios de águas rápidas. Possuem um corpo chato, enorme cabeça, tórax desenvolvido e fortes patas que lhes permitem enfrentar a forte correnteza.

Por último temos as ninfas cavadoras que se caracterizam por construir túneis no leito argiloso do rio, habitam em águas calmas e moderadas, possuem patas muito fortes e grandes mandíbulas para cavar, as brânquias são muito filamentosas para oxigenar rapidamente a água quando estão em seus túneis. São boas nadadoras que habitam águas rápidas ou lentas, possuem patas compridas e delgadas e podem nadar em velocidade, por curto espaço de tempo.

A cada estágio de desenvolvimento a ninfa vai mudando de pele (vinte a trinta mudas é o usual) já que o exoesqueleto quitinoso não cresce junto com a ninfa. As mayfly passam 99% de sua vida na etapa de ninfa, e as trutas se alimentam delas ao longo de todo o ano.

Algumas imitações de ninfas de mayfly:

Pheasant Tail

Pheasant Tail – Hare’s Ear – Zug Bug – Quill Gordon – Green Drake – Blue Wing Olive - March Brown – Hendrickson

Quando as ninfas estão prontas para emergir, a coloração do encaixe das asas se torna cada vez mais escura a medida que o momento se aproxima. As ninfas de cada espécie têm seu tempo e forma para emergir, ainda que tenham em comum o fato de que antes que isto aconteça, elas migrarem para águas rasas e tranqüilas, ou buscar lugares protegidos, onde poderão completar sua metamorfose. Quando é chegado esse momento, começam a ascender para a superfície e se detem justamente abaixo da mesma. Algumas enchem seus estômagos de ar e flutuam até a superfície; outras trepam pelas ramas, talos da vegetação e também nas pedras. A cobertura quitinosa do inseto começa a abrir-se na metade da área dorsal do tórax e através dessa abertura aparece o inseto adulto imperfeito: a subimago (também clamada dun). As trutas se alimentam das ninfas que viajam até a superfície, das que estão em plena transição e também das subimagos que flutuam na água. E esse é o grande momento para o flyfisher.

Algumas imitações de emergentes de mayfly:

Pheasant Tail - Hare’s Ear - Sparkle Dun - Compara Dun - Floating Nymph.

As ninfas ascendem com certa facilidade, porém lhes custa muito trabalho para emergir. Pode acontecer que, por causa de aderências entre seu corpo e o saco ninfal não lhes seja possível eclodir, ficando coladas na pele e por mais que se retorçam geralmente não podem se liberar. Este estágio de eclosão abortada recebe o nome de stillborn e é muito tentador para a truta.

Dun

Se tudo sai bem, tão logo elas tenham secado suas asas ao Sol, movimentando-as ao ar enquanto se deixam arrastar pela correnteza, a subimago começa a voar e busca um lugar protegido para sua última metamorfose. Nesse primeiro estágio alado o inseto apresenta dois pares de asas verticais semi-opacas e bastante irrigadas, sendo que o par anterior é bem maior e desenvolvido que o posterior. Algumas espécies são muito pequenas e apresentam somente um par de asas.

Os duns em repouso por sobre a água levam suas asas erguidas acima das costas e se assemelham a veleiros em miniatura. Seu aparelho digestivo foi atrofiado e não possuem boca, pois não necessitam comer, uma vez que seu único objetivo é amadurecer sexualmente, acasalar-se e desovar.

Para a grande maioria das espécies o lapso entre emergir e a muda final é de aproximadamente 24 h, mas pode durar até uma semana e se caracteriza por sua inatividade. A ordem das efemerópteras é a única que sofre esta segunda metamorfose entre os estados de ninfa e inseto adulto.

Spinner

Quando conclui o período de inatividade, o tórax do dun se abre abaixo das costas e emerge o segundo adulto. Livrando-se da pele de dun a transformação não estará completa até que o spinner alce vôo. A imago ou spinner não se parece muito com o subimago ou dun. A mosca de maio adulta tem um corpo fino e brilhante e sua cor pode diferir muito da subimago. Possui caudas bem compridas e asas transparentes que em posição de repouso permanecem completamente na posição vertical.

Enquanto são dun é difícil diferenciar o macho da fêmea, mas quando se transforma em spinner, geralmente os olhos do macho são maiores e com cores refletivas; as patas dianteiras são mais longas nos machos.

A imago vive poucas horas, não mais que dois dias, e é nesse período que se realiza o acasalamento no ar, logo após a dança nupcial que tem lugar sobre a água. Esse acontecimento ocorre “águas acima” (recordemos que derivaram “águas abaixo” quando estavam para emergir, enquanto secavam suas asas e recobravam as forças). Deste modo os spinners regressam à área do rio em que nasceram, onde as fêmeas desovam, reiniciando o ciclo. A fêmea fecundada deposita os ovos, que têm aderido na ponta do abdome, na superfície d’água e morre com suas asas abertas em formato de cruz (spent). O macho também morre pouco depois e a truta aproveita essas ocasiões para encher bem o estômago.

Algumas moscas que imitam adultos de May flies:

Hendrickson Spinner

Adams – Hendrickson – March Brown – Light Cahill – Royal Coachman Irresistible – Humpy – No Hackle – Parachute Flies – Extended Body Flies – Black Gnat – Spinner Flies – Paradrake Flies.

Depois de haver aprendido um pouco sobre o ciclo de vida das moscas de maio, fica evidente que essas informações são de grande ajuda para o flyfisher. A truta tem várias oportunidades para comer: as ninfas no fundo ou as que sobem até a superfície, a subimago sobre a superfície e, como imago caindo sobre a água. E todas estas etapas do ciclo requerem pelo menos quatro modelos de moscas.

CADDIS FLIES: Tricópteras (Trico: pelo; Ptero: ala)

Caddis

Esta ordem de insetos está presente em todo tipo de águas e leitos de rios. É um inseto de metamorfose completa, a qual inclui os estados de ovo, larva, crisálida ou pupa e adulto. Este ciclo dura aproximadamente um ano. A etapa de pupa é necessária já que a diferença morfológica entre a larva e o adulto é muito grande.

Uma vez que a fêmea deposita seus ovos, esses vão ao fundo rapidamente, depositando-se entre a vegetação, o cascalho e as pedras. Ao cabo de alguns dias eclosionam, transformando-se em larvas. A larva da tricóptera se parece com um pequeno verme de textura suave, com corpo cilíndrico e segmentado, com cabeça e tórax escuros e três pares de patas bem desenvolvidas.

Larva de TricópteraLarva de TricópteraLarva de Tricóptera

Existem vários tipos de larvas: as que nadam livremente usando a vegetação para proteger-se e são carnívoras e que constroem rapidamente seu abrigo tão logo começa sua transformação para pupa; outras que são conhecidas como “net spinners”, constroem abrigos que se assemelham a redes de seda, que lhes permite prender-se nas plantas e a qualquer coisa que lhes sustentem; estas redes servem para reter alimentos e dejetos. E por último, apresentamos as larvas que constroem uma casinha feita de folhas, gravetos, areia ou seixos colados mediante fios secretados por uma glândula. Um grupo a parte formam a Microcaddis, que medem de 2 a 5 mm e constroem em seu 5° estágio, abrigos tubulares com diversos materiais.

Com relação às larvas que nadam livremente, sabe-se que os picos de sua presença acontecem com o nascer e com o pôr do Sol (isso também é válido para as Efemerópteras e as Plecópteras), e adotam uma posição curva quando são arrastadas pela correnteza. As larvas com abrigo também derivam e são comidas pelos peixes que remexem o fundo, e sua posição é em geral, reta.

Algumas moscas que imitam larvas:

Green Caddis Larva

Green Caddis Larva – Bead Head Caddis – Gill-Ribbed    Caddis – Latex Larva - Peeking Caddis - Gill-ribbed Larva - La Fontaine Caddis Larva - La Fontaine Cased Caddis.

Pupa de Tricóptera

Todas as larvas de tricópteras, livres ou não, se fecham num casulo para efetuar sua transformação para pupa. Essas casinhas não são herméticas e permitem que haja renovação da água para obter oxigênio. A transformação dura de duas a três semanas, ao final das quais emerge a pupa de aspecto muito parecido com o do adulto. Seu aspecto é alongado, com patas longas, duas asas incipientes ao lado do corpo e antenas voltadas para trás. É preciso esclarecer que a pupa não adota a posição curva das larvas.

Uma vez que a pupa madura (processo que leva de duas a cinco semanas), abre o estojo mastigando o tampão de seda que o fecha, sai para o exterior. Ela quase é um adulto completo, mas ainda conserva uma membrana translúcida clamada saco pupal. Esta membrana se enche de borbulhas de ar que ajudam a pupa subir para superfície. Enquanto isso acontece, a pupa é arrastada pela correnteza até que ela possa subir com ajuda de suas fortes patas. Uma vez que ascendeu, se detem justamente debaixo da superfície e enquanto trata de atravessar a película de água (tarefa nada fácil), volta a ser arrastada pela correnteza.

Algumas moscas que imitam pupas:

Sparkle Pupa Soft Hackles – Sparkle Pupa – La Fontaine Deep Pupa – La Fontaine Emergent Pupa.

Quando conseguem chegar a superfície, o saco pupal se rasga e sai o adulto que voa rapidamente. Os peixes atacam nos momentos e áreas de maior concentração: próximo ao fundo e abaixo da película da superfície d’água.

Pode acontecer que diversos fatores alterem os planos das caddis recém eclosionadas, como por exemplo, a poeira e o pólem que são levados pelo vento e que se depositam sobre a água, e isto pode fazer com que as asas fiquem coladas na superfície; assim, como não conseguem alçar vôo, são altamente vulneráveis à truta.

Caddis Adulto

O inseto adulto possui um par de antenas mais longos que suas asas. Seus olhos são bem visíveis, possui boca sugadora e asas triangulares que se dobram sobre o corpo de forma paralela. O corpo é cilíndrico e robusto.

Uma vez iniciado o vôo, começa a dança nupcial, onde se juntam milhares de indivíduos sobre a água e arredores. A truta se mostra muito ativa nesses momentos. A fecundação se produz sobre a terra e logo que a fêmea volta para a água, solta seus ovos. Algumas espécies submergem tendo ao redor de seu corpo umas bolhas de ar e depositam os ovos no leito; outras se utilizam das ramas, pedras ou raízes para chegar até o fundo do rio. Em todas essas ocasiões muitas fêmeas se afogam, assim que podemos aproveitar para imitar este momento com nossas moscas artificiais e também as que submergem respirando ajudadas pela bolha de ar.

Algumas moscas que imitam adultos:

Elk Hair Caddis * Elk Hair Caddis – Goddard Caddis – Stimulator – Trude.
Bibliografia:
La trucha selectiva – D. Swisher, C. Richards – Ed. Tutor – 1997 
La magia de pescar con mosca – A. Maubré – 1998  
Tricópteras patagónicas – J. Calandra – Boletín Mosquero Primavera 96  
Moscas para la pesca – R. Del Pozo Obeso – Ed. Everest – 1987  
Mayflies y sus imitaciones – J. M. Di Liscia – Entre Líneas – Octubre/Noviembre 1994 – Año 1, N° 2.  
Imitando a las Caddis – J.C. Gilardi - Entre Líneas –Octubre/Noviembre 1994 – Año 1, N° 2.

*Silvia é empresária – pecuarista – na Argentina e flyfisher por tradição de família. Para mais informações sobre ela leia matéria Flyfishing também é para mulheres.
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