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AS TRUTAS PODEM ESCUTAR?
 

Por: David Whitlock
Colaboração: Federico Prato*
Tradução e Foto
: LF Pinheiro

Truta Arco-íris no rio Chimehuim

As trutas podem perceber “escutar” ruídos e vibrações, pois possuem dois sistemas receptores bem definidos. O primeiro é formado por dois ouvidos internos no interior da cabeça e o segundo por um sensor lateral formado por uma linha longitudinal, de cada lado do corpo. Este sistema lateral é muito mais que um ouvido modificado, é um sensor de pressão.

Por possuir maior densidade, o meio aquático transmite ruídos e ondas sonoras mais rápido e eficientemente que o meio aéreo.
O ouvido interno da truta capta vibrações de alta freqüência ao mesmo tempo em que o sistema lateral percebe sons de baixa freqüência, vibrações ou ondas sonoras.

Normalmente as trutas podem, sem fazer uso da visão, identificar o tamanho, direção e velocidade de um objeto numa distância de até 6 metros. Em distâncias superiores a 9 metros, elas percebem ruídos e ondas através do seu ouvido interno.

Como podemos ver, a maioria dos ruídos e vibrações de alta e baixa freguências podem ser percebidos pelas trutas. Desta forma, a reação delas será de acordo com a interpretação desses sons que poderão significar comida ou inimigo.
Quando nos aproximamos vadeando até uma truta, ela escuta o som provocado pelas nossas pernas agitando a água e, ao mesmo tempo percebe o ruído das nossas botas roçando o fundo. O peixe pode detectar sons através das ondas de pressão geradas na água e saber o tamanho das pernas submersas, velocidade e direção do pescador.

As distintas criaturas que vivem no meio, como por exemplo, alevinos, víboras e caranguejos são percebidas e identificadas de igual maneira. A reação das trutas dependerá da interpretação que poderá identificar o som como sendo de comida, inimigo ou de nenhum interesse.
Uma truta “dormindo” depende inteiramente do sistema lateral para sua sobrevivência e este é empregado como primeiro dispositivo de alarme.
Outros sinais podem ser percebidos por um peixe “dormindo” através desse sistema de linhas laterais, como por exemplo, quando outros peixes buscam rapidamente refúgio. Então o peixe “acorda” da sua letargia e empreende fuga.

As trutas também podem “ativar-se” quando, por exemplo, alguns organismos geram ondas ou ruídos. Em alguns casos o efeito pode ser provocado pelo ruído das iscas.
O som de insetos aquáticos e especialmente o de outros peixes comendo, estimula a truta a alimentar-se.
Na seqüência  um breve relato de uma observação da situação mencionada.
UM CAÇADOR DE ALEVINOS NA ESCURIDÃO: A TRUTA MARROM.
O sol já havia se posto há duas horas e a noite estava cerrada, pois não havia lua. Num grande poço perambulava uma grande truta marrom em busca de caranguejos, alevinos e algumas espécies de insetos para se alimentar.
Nossa mosca, feita de pelo de cervo, grande e escura é lançada no final do poço. A grande marrom alertada pelo “plop” do streamer na água trata de decifrar o que ocorre no profundo silêncio. Passo seguinte, o streamer é recolhido próximo ao fundo, ora arrastado sobre as pedras, ora sobre a vegetação aquática.

A marrom detecta esses movimentos através das ondas de pressão e os interpreta com perfeição. Lentamente começa a nadar até a mosca e quanto mais se aproxima mais precisos são os registros.
A distância, percebe a mosca, o tamanho e a velocidade por meio das linhas laterais.
Quando se encontra há uns 60 cms a grande marrom pode ver a mosca e se aproxima ainda mais. Porem, algo não confere, pois não há o característico pânico, o cheiro de sangue e as típicas vibrações. Ao contrário, tem um cheiro horrível não natural ou comum às espécies que constituem sua base alimentar.

A truta marrom continua seguindo a mosca por mais alguns metros, confirmando o que antes havia percebido em seus sentidos, para finalmente empreender uma nova busca por alimento. Algo que seja mais real, que agrade mais aos seus hábitos alimentares.
Este é um caso comum entre nós, a escuridão diminui a distancia de visão da truta e, podemos comprovar que tanto os ouvidos como o sistema lateral se combinarão para permitir detectar e localizar a presa.

Não obstante a isso, a visão em conjunto com outros sentidos foi empregada e determinou que a truta, no último momento, mudou sua decisão e não comeu a presa: nossa mosca.

 

*Federico Prato é argentino e da terceira geração de uma família de flyfishers. Dono de conhecimentos e técnicas excepcionais sobre flyfishing, mora na região serrana de Córdoba, Argentina. Para conhecer o amigo cordobés visite: www.federicoprato.com.ar